CHAUI, M. (2025): CHAUI, Marilena. Sou marxista pra valer, ainda odeio a classe média e não quero entrar no século 21, diz Marilena Chaui. Entrevista concedida a Fernanda Mena. Folha de S.Paulo, São Paulo, 27 set. 2025. Disponível em: link externo. Acesso em: 28 set. 2025.
comentário: As pontuações da filósofa brasileira Marilena Chaui têm total aderência com as da filósofa estadunidense Susan Neiman no livro “A esquerda não é woke”.
trechos:
Essa ideia se mantém mesmo quando no cotidiano a violência está inscrita. Você tem a violência racista, a violência machista, a violência de classe. Você pode escutar uma dona de casa dizer: “A minha empregada é ótima, não rouba nada”. E ela achar que não tem preconceito de classe!
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Um dos aspectos que mais me incomodam e me preocupam é que, no instante no qual a sociedade brasileira vai numa tentativa de democratização, de luta por direitos e garantia de direitos, o risco é esses movimentos se tornarem identitários e fragmentarem a sociedade.
E na fragmentação você não consegue formar uma totalidade política e se torna muito vulnerável à extrema direita, que é onde essa totalidade se forma. Essa fragmentação nos coloca sob o risco de um ataque contínuo da extrema direita, que, essa sim, é um bloco.
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Conservadora no sentido de que a senhora é marxista mesmo?
Sou, pra valer. Tem que pensar a partir da economia, senão você pensa só a partir da ideologia. Você começa a ideologizar tudo e corre o risco de ideologizar os movimentos sociais, que passam a ter conflitos entre si e a se dividir internamente também. Muito me preocupa o fato de que possam surgir bolsões de intolerância.
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Então, a classe média funciona oprimindo os dominados e festejando e bajulando os dominantes. Por isso ela é odiosa. Ela é o cimento ideológico que garante que essa sociedade fique como está. É isso que acho odioso nela: não perceber que essa sociedade como está não pode ser.
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A senhora foi recentemente homenageada como uma docente negra da USP e disse que se autodeclara parda. Quando se reconheceu como tal?
Olha, foram os movimentos antirracistas e de cultura negra que abriram meus olhos. Nunca tinha percebido, porque em casa nunca foi assunto. Eu me dei conta olhando as fotos dos meus bisavós: “Mas eles são negros!”. E a foto dos meus bisavós árabes: “Eles são brancos!”. Então, o que eu sou? Mas sem os movimentos sociais, nunca teria pensado nisso.