GONTIJO, L. (2026): GONTIJO, Leonardo. Instituto Mano Down: “A gente não fala, a gente faz” – entrevista concedida a Odette Castro. Echo da Mata (on-line), Peçanha, 30 abr. 2026. Disponível em: link externo. Acesso em: 1º jun. 2026.
comentário: Integra as referências de Parecer Técnico CPA-PBH n.º 001/2026.
observação: Acesse também o verbete Instituto Mano Down.
texto integral (sem as imagens):
Conheci Leonardo Gontijo, o Léo Mano Down em 2014, em um encontro rápido onde trocamos nossos livros. Eu fiquei com “Não Importa a Pergunta, a Resposta é o Amor” e ele levou “Rubi”. O que estava escrito em nossas histórias era a luta por um mundo diverso e inclusivo.
Doze anos depois, Léo abre seu coração para o Echo da Matta, com a mesma resposta que o trouxe até aqui : o amor.
Fundador do Instituto Mano Down, Leonardo Gontijo conta como a relação com o irmão Eduardo, o Dudu, transformou sua trajetória pessoal e profissional e deu origem a um dos mais importantes projetos de inclusão de Minas Gerais.
A história do Instituto Mano Down começa muito antes de sua formalização. Léo, mais novo de um irmão e de uma irmã mais velhos, cansado de ser o “pára raio das tretas”, sonhou com um irmão caçula para “unir forças”.
O sonho se concretizou em 1990 com o nascimento de Eduardo Gontijo.
“Dudu nasceu, com síndrome de Down e como era muito comum na época, a notícia foi muito mal comunicada a meus pais. Disseram que ele não andaria, não falaria e que morreria aos quatro anos. Foi um diagnóstico duro, profundamente despreparado”, relembra Leonardo.
Mas foi justamente naquele momento que nasceu também uma conexão transformadora.
“Naquele dia, quando fui visitá-lo, ele olhou para mim e nesse encontro de olhos, eu ouvi: acredita em mim. Ali começou uma ligação muito forte entre nós dois.
Leonardo seguiu sua formação acadêmica em duas áreas ao mesmo tempo: Direito e Engenharia. Mudou de cidade – se mudou para São Paulo – Construiu uma carreira sólida, tornou-se diretor de uma grande empresa e alcançou estabilidade financeira.
DA INQUIETAÇÃO À MUDANÇA DE VIDA
Ainda assim, algo o inquietava.
Sempre que retornava a Belo Horizonte, percebia o quanto Dudu permanecia restrito ao ambiente doméstico.
“Eu brigava com meus pais, no bom sentido, porque via meu irmão muito sozinho. Até que percebi que eu estava terceirizando a responsabilidade. Queria uma sociedade inclusiva, queria meu irmão mais autônomo, mas esperava que os outros fizessem.”
A partir dessa constatação, veio a grande virada.
“No aniversário de 18 anos do Dudu, eu disse aos meus pais: parei de falar, agora vou fazer.”
Em 2011, nasceu o embrião do que se tornaria o Instituto Mano Down.
O começo: autonomia e acolhimento
No início, o foco era simples e profundo: promover a autonomia de Dudu: aprender a atravessar a rua, andar de Uber, frequentar shows, estádios, boliche e espaços de convivência.
Paralelamente, Leonardo e o irmão passaram a acolher famílias nas maternidades e hospitais, especialmente aquelas que acabavam de receber o diagnóstico de síndrome de Down.
“A hora da notícia é muito importante. A família precisa ver um exemplo, precisa enxergar possibilidade e futuro.” Eles vão pessoalmente a hospitais conversar com os pais da criança Down recém-nascida.
Com a visibilidade das redes sociais, a história de Dudu ganhou alcance. Ele se tornou o primeiro músico com síndrome de Down do mundo, gravou CD e DVD e entrou para o Guinness Book.
O PREÇO DA ESCOLHA
Em 2015, Leonardo tomou uma das decisões mais radicais de sua vida: deixou a carreira executiva para se dedicar integralmente ao projeto.
“Eu tinha duas filhas, padrão de vida alto, estabilidade. Mas estava profundamente infeliz. Estava vivendo contra os meus valores.”
A decisão teve um custo alto.
“Vendi apartamento, vendi carros, gastei todo o meu patrimônio e dediquei 100% da minha vida ao Instituto.”
O que começou na garagem da casa da mãe transformou-se em uma organização estruturada.