Esta postagem reporta um caso clássico de lesbofobia, uma derivação da LGBTQIAPN+fobia.
CONTRA (2014b): CONTRA A SEGREGAÇÃO, VAMOS FAZER REVOLUÇÃO. Movimento contra o vagão rosa. Facebook, 12 jul. 2014. Acesso em: 12 jul. 2014 (página no facebook não mais disponível no link então registrado como fonte em 12/07/2014 ao se repetir a consulta em 25/09/2019).
observação: citado em mobilidade de mulheres (etnografia).
texto integral:
SÁBADO, 12 DE JULHO DE 2014
Movimento contra o vagão-rosa
Pra quem ainda tem dúvidas sobre o que representa REALMENTE isso de “vagão rosa”. Leiam. Entendam.
Contra a segregação, Vamos fazer revolução – Primeiro ato contra o vagão rosa – O espaço público é das mulheres!
Relato problematizando o vagão rosa, onde há a exclusão de mulheres de aparência lida como masculina dentro do vagão:
“Há alguns meses foi implantado o ”Vagão da Mulher” no metrô DF.
Em horários de pico, o primeiro vagão tem acesso exclusivo para mulheres e pessoas portadoras de necessidades especiais. Todo mundo achando lindo esse apartheid escroto em que se separa as ”fêmeas dos machos” pra evitar o assédio sexual entre outras coisas. É bem mais fácil separá-los ao educar e conscientizar uma população sobre os traumas que o machismo causam todos os dias, ENFIM…
Não sou a favor do vagão exclusivo nem o utilizo, mas hoje por motivos cotidianos me atrasei e a porta que fica mais próxima da escada é justo a do vagão. Entrei e me sentei como qualquer outra pessoa ali. Eu, lésbica assumida, cabelos curtos, moletom, alargadores e de mochila. Não me encaixo no padrão mais feminino do mundo, mas não deixo de ter traços e véstias femininas (percebe-se até por minhas fotos no facebook). Não sou uma Teresa, muito menos uma Thammy Gretchen da vida, nem as uso como ”modelo”.
Na estação seguinte, entraram dois seguranças homens no metrô, um deles olhou pra mim, se aproximou, parou na minha frente e começou a falar num tom alto no meio do vagão:
-De acordo com as novas normas do Metrô DF, nesse horário o primeiro vagão é destinado à mulheres e pessoas portadoras de necessidades especiais. O SENHOR é portador de alguma necessidade especial?
Automaticamente, todas as mulheres dali começaram a me encarar. Algumas com olhares de dó, outras de deboche, algumas com asco, outras sorriam como se estivessem satisfeitas.
Eu, sem reação olhei pro rapaz e disse:
-Oi?
Ele pegou no meu braço me tirando do vagão:
-O senhor pode se retirar.
Eu fiquei tão sem reação, me senti tão humilhada, tão injustiçada e escorraçada que não consegui olhar pra outro lugar a não ser pros olhos do rapaz. A sensação de ser retirada daquele ambiente e a forma como todas as pessoas me olhavam me fizeram sentir um lixo humano, uma ‘coisa’ que não se enquadrava em lugar algum. Não consegui gritar, rebater, nem falar nada pro rapaz enquanto ele me tirava dali com a mão no meu braço.
O metrô fechou as portas e eu na plataforma da estação falei:
-Eu sou mulher.
Ele sorriu junto do outro segurança e num tom de deboche retrucou:
-Ah é, desculpa.
Se virou e continuou caminhando na plataforma.
Não consegui fazer nada além de sentar e chorar depois daquela humilhação toda. Nunca fui vítima de preconceito dessa maneira. Não, eu não estava travestida de homem, tão pouco tenho traços de tal. Tenho seios e não os escondo nem me envergonho do meu corpo.
Não tive a agilidade de me apegar ao nome do rapaz e mesmo que eu soubesse, quem ali iria testemunhar o que eu tinha acabado de sofrer? E se testemunhasse, o que eu poderia fazer pra alegar o preconceito e a humilhação que eu passei naqueles minutos? Que retorno eu teria levando em consideração a justiça lenta, sociedade homofóbica e machista que o Brasil tem?
Enfim, não sei ao certo o que pensar sobre nem o que fazer com o sentimento de indignação que estou sentido. Só queria desabafar mesmo.”
Dentre os comentários postados eu, Marcos Fontoura de Oliveira, selecionei o seguinte:
Helen Mart: Sinceramente concordo q é segregação e não é a solução adequada. Porem como usuária diária de trem, prefiro isso do q como esta hj. Aos q opinam e USAM o transporte, qual seria a alternativa efetiva (sem blablabla p favor?) como está não dá…
15 h · Editado · Curtir · 4
Esse comentário, de uma cidadã comum, evidencia o quanto até pessoas que se solidarizam com quem é diferente rendem-se ao que as beneficia diretamente à custa da violação do direito de outras. Essa talvez seja uma variação da clássica pergunta que sempre é feita, sem que haja uma boa resposta: o que é mais importante, a segurança ou a liberdade?