GASPARI, E. (2026a): GASPARI, Elio. Elisabeth, a menina de Renoir, viveu beleza de um século e ruindade de outro. Folha de S.Paulo, São Paulo, 18 jul. 2026. Disponível em: link externo. Acesso em: 19 jul. 2026.
trecho:
Em janeiro de 1944, Elisabeth tinha 69 anos e vivia reclusa, por receio e por causa de sua artrite. A guerra estava perdida para a Alemanha. O Exército Vermelho já havia entrado na Polônia e, em Londres, os Aliados planejavam a invasão da Normandia e o general americano Dwight D. Eisenhower havia sido colocado no comando do Dia D. Os Aliados haviam desembarcado na Itália. (O Vaticano pediu que não entrassem em Roma com soldados negros.) Em Paris, as porteiras dos judeus depenaram suas casas. Nesse período, no interior da França, uma patrulha chegou a uma casa: procuravam uma judia. A senhora não andava sem ajuda. Elisabeth Cahen d’Anvers foi presa e colocada num Citroën.
O prefeito do lugar era um antissemita extremado e neto de Eugène Schneider, um titã da indústria francesa, e as duas famílias já se haviam cruzado. Ele informou que a senhora havia sido judia até os 20 anos. A menina de Renoir foi para uma prisão próxima e de lá para um campo de trânsito. Dias depois, estava em Drancy, a antessala da morte.
No dia 27 de março de 1944, ela foi colocada num vagão com destino ao campo de extermínio de Auschwitz. No comboio foram cerca de 1.000 pessoas (só 152 sobreviveriam). A viagem durou 55 horas, e cada prisioneiro recebeu apenas um pedaço de pão.
Elisabeth, a menina de vestido azul, desapareceu.