SIMMEL, G. (2005): SIMMEL, Georg. As grandes cidades e a vida do espírito (1903 – título original do texto: Die Grovstädte und das Geistesleben). Tradução: Leopoldo Waizbort. Mana, Rio de Janeiro, v.11, n.2, p.577-591, outubro 2005. [ Texto original: “Die Großstädte und das Geistesleben”. In: SIMMEL, Georg. Gesamtausgabe. Frankfurt: M. Suhrkamp. 1995. vol. 7. pp. 116-131]. Disponível em: internet. Acesso em: 14 mar. 2018 e 24 ago. 2020.
ponto de atenção (Introdução do Relatório Final da pesquisa): Registrado na versão C em 13/06/2025: Pendente: avaliar a pertinência de citar aqui SIMMEL, G. (1967; 2005); ERVAS (2023).
comentário: Do mesmo autor acesse também: A metrópole e a vida mental (1967).
trechos:
p.579: […] Seguro é apenas que a forma da vida na cidade grande é o solo mais frutífero para essa interação, o que gostaria ainda de comprovar com a palavra do mais importante dos historiadores ingleses da constituição: no decurso de toda a história inglesa, Londres nunca foi considerada o coração da Inglaterra, mas freqüentemente seu entendimento e sempre sua bolsa!
p.586: […] Inicialmente, as cidades são o local da mais elevada divisão econômica do trabalho; elas criam assim fenômenos tão extremos como, em Paris, a lucrativa profissão de quatorzième: pessoas, que se dão a conhecer por letreiros em suas casas, que à hora do jantar estão prontas, com trajes adequados, a serem rapidamente convocadas a participar de jantares em que o número de pessoas à mesa seja treze. […]
p.589: […] A função das cidades grandes é fornecer o lugar para o conflito e para as tentativas de unificação dos dois, na medida em que as suas condições peculiares se nos revelam como oportunidades e estímulos para o desenvolvimento de ambas [a tradução dessa frase em A metrópole e a vida mental que integra o “O fenômeno urbano” me parece melhor]. Com isso as cidades grandes obtêm um lugar absolutamente único, prenhe de significações ilimitadas, no desenvolvimento da existência anímica; elas se mostram como uma daquelas grandes formações históricas em que as correntes opostas que circunscrevem a vida se juntam e se desdobram com os mesmos direitos. Mas com isso — sejam-nos simpáticos ou antipáticos seus fenômenos singulares — elas saem completamente da esfera perante a qual nos é adequada a atitude do juiz. Na medida em que tais potências penetraram na raiz e na coroa de toda a vida histórica, a que pertencemos na existência fugidia de uma célula, nossa tarefa não é acusar ou perdoar, mas somente compreender [nota 1].
p.590: Nota do tradutor
“As grandes cidades e a vida do espírito” (“Die Grossstädte und das Geistesleben”) — também conhecido como “A metrópole e a vida mental” — é o texto de uma conferência proferida por Georg Simmel (1858- 1918) por ocasião da Exposição das Cidades, ocorrida em Dresden, Alemanha, no inverno de 1902-03. Durante este evento, outros intelectuais alemães da época também proferiram conferências, mas a de Simmel foi, de longe, a de melhor fortuna. Trata-se, entretanto de um rearranjo de idéias já há tempos divulgadas pelo autor, pelo menos desde o final da década de 1880, e que ele já tivera, àquela altura, oportunidade de apresentar em um de seus livros mais importantes, a Filosofia do dinheiro, publicado em 1900 (um livro que tem em comum com a Interpretação dos sonhos não somente o ano de sua publicação). Com efeito, a conferência de 1903 é uma espécie de versão ampliada do capítulo final de Filosofia do dinheiro, intitulado “O estilo de vida”. Não obstante, trata-se de um recorte especialmente feliz, que permitiu em poucas páginas sintetizar as linhas mestras das idéias expostas na segunda parte do livro de 1900. Não por acaso, Simmel, ao final da conferência, remete seus leitores a este mesmo livro, no qual tudo se encontra melhor desenvolvido. Ambos, o livro e a conferência, tornaram-se — embora em momentos e com ênfases variadas — textos clássicos das ciências sociais.
É justamente essa a razão que justifica a publicação da presente versão em Mana, mas não somente. Os leitores brasileiros e portugueses há muito conhecem “A metrópole e a vida mental” (do inglês “The Metropolis and Mental Life”), que chegou até nós em uma coletânea intitulada O fenômeno urbano, organizada por Otávio Velho, e publicada ao final dos anos 1960. Desde a década seguinte, Gilberto Velho passou a incorporar as reflexões de Simmel em seus trabalhos, de tal modo que o destino dessa conferência parece estar, em nosso país, definitivamente ligado ao PPGAS/Museu Nacional. Não surpreende, portanto, que em 2005, um grupo de pesquisadores desta instituição tenha se reunido para ler a Filosofia do dinheiro — pois como Simmel muito bem percebeu, quem herda não rouba.
- Sei que irei morrer sem herdeiros espirituais (e é bom que seja assim). Meu espólio é como uma herança em dinheiro vivo, que é dividida entre muitos herdeiros: cada um converte a sua parte em alguma aquisição de acordo com a sua natureza, de modo que não se pode enxergar a sua proveniência daquele espólio.
p.591: Embora na hora de sua morte Simmel não tenha nomeado herdeiros, eles não deixaram de proliferar desde então.
Sobre a tradução. Como, por um lado, a tradução dos anos 1960 foi baseada na tradução norte-americana do texto de Simmel (uma vertente poderosa na história de sua recepção) e, por outro, o livro no qual ela foi publicada se encontra há muito esgotado, julguei válido oferecer uma tradução a partir do texto original, tomado agora do sétimo volume da edição das obras completas de Georg Simmel, ainda em curso pela editora Suhrkamp de Frankfurt-am-Main. A bibliografia nacional e internacional sobre Simmel, por sua vez, oferece amplos e variados materiais para subsidiar e ampliar a discussão desse texto notável, razão pela qual esta nota se abstém de fazê-lo.
Notas
Texto original: “Die Großstädte und das Geistesleben”. In: SIMMEL, Georg Gesamtausgabe. Frankfurt: M. Suhrkamp. 1995. vol. 7. pp. 116-131. Tradução de Leopoldo Waizbort.
1 O conteúdo desta conferência, por sua própria natureza, não remonta a uma literatura própria. A fundamentação e apresentação de suas principais idéias históricoculturais é dada pela minha Philosophie des Geldes.