ANDRADE, C.D. (1996): ANDRADE, Carlos Drummond de. Hino ao bonde. In: MIRANDA, Wander Melo (Org.). Belo Horizonte: a cidade escrita. Belo Horizonte: UFMG; Assembléia Legislativa do Estado de Minas Gerais, 1996. p.157-159.
observação nossa: O bonde Santa Maria desse poema é citado em etnografia de mobilidade de mulheres (transporte coletivo motorizado). e integra a lista do verbete bonde segregado em Belo Horizonte.
p.157:
[…]
O bonde, sede da democracia em movimento,
esperado com pachorra no Bar do Ponto
nos abrigos Pernambuco e Ceará.
o arejado, pacífico, oportuníssimo
salão onde se lêem de cabo a rabo
o expediente das nomeações e demissões
nas páginas sagradas do Minas Gerais
e as verrinas amarelas dos jornalecos da oposição.
[…]
p.158:
[…]
Bonde turístico, antes que o turismo seja inventado.
Vamos dar a volta-Ceará?
Por um tostão passamos em revista
palacetes art-nouveau novinhos em folha,
[…]
Um tusta apenas e é a ridente Floresta,
seu Colégio Santa Maria, cheio de meninas {citado}
(ainda não se usa a palavra garota)
que vão num bonde mágico e nele retornam
para o rápido cruzamento em que, do nosso bonde,
sentimos passar a graça das sílfides
e o esvoaçar das libélulas
inalcançáveis.
[…]
p.159:
[…]
Suave bonde burocrático, atrasado bonde sob a chuva
que molha os bancos sob cortinas emperradas,
bonde amarrado à vida de 50
mil passageiros, minha gôndola,
meu diário bergantim, meu aeroplano,
minha casa particular aberta ao povo,
eu te saúdo, te agradeço; e em pé no estribo,
agarrado ao balaústre,
de modesto que és, faço-te ilustre.