Comunicação & Informação, Goiânia, v.15, n. 2, p._, jul./dez. 2012. (revista do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Goiás (PPGCom/ UFG).
- CHAUI, M. (2012b): CHAUI, Marilena. Democracia e sociedade autoritária. Comunicação & Informação, Goiânia, v.15, n. 2, p. 149-161, jul./dez. 2012. Disponível para baixar em: link externo. Acesso em: 9 nov. 2021. (palestra proferida pela professora Marilena Chauí, em Goiânia, no dia 14 de março de 2013, no Espaço Oscar Niemeyer).
trecho inicial:
A sociedade democrática
Estamos acostumados a aceitar a definição liberal da democracia como regime da lei e da ordem para a garantia das liberdades individuais. Visto que o pensamento e a prática liberais identificam liberdade e competição, essa definição da democracia significa, em primeiro lugar, que a liberdade se reduz à competição econômica da chamada ―livre iniciativa‖ e à competição política entre partidos que disputam eleições; em segundo, que a noção de regime da lei e da ordem indica que há uma redução da lei à potência judiciária para limitar o poder político, defendendo a sociedade contra a tirania, pois a lei garante os governos escolhidos pela vontade da maioria; em terceiro, significa que há uma identificação entre a ordem e a potência dos poderes executivo e judiciário para conter os conflitos sociais, impedindo, por meio da repressão e da censura, sua explicitação e desenvolvimento; e, em quarto lugar, que, embora a democracia apareça justificada como ―valor‖ ou como ―bem‖, é encarada, de fato, pelo critério da eficácia, medida, no plano legislativo, pela ação dos representantes, entendidos como políticos profissionais, e, no plano do poder executivo, pela atividade de uma elite de técnicos competentes aos quais cabe a direção do Estado, ou a afirmação de que a democracia é o governo de muitos por poucos.
A democracia é, assim, reduzida a um regime político eficaz, baseado na idéia de cidadania organizada em partidos políticos, e se manifesta no processo eleitoral de escolha dos representantes, na rotatividade dos governantes e nas soluções técnicas para os problemas econômicos e sociais.
Ora, há, na prática democrática e nas idéias democráticas, uma profundidade e uma verdade muito maiores do que liberalismo percebe e deixa perceber.