A imagem no topo deste verbete foi criada em 06/01/2025 pela Pallavra Comunicação. Ela contém um um retrato estilizado de Susan Neiman junto a referências históricas e elementos estéticos da esquerda mundial.
NEIMAN, S. (2024): NEIMAN, Susan. A esquerda não é woke. Tradução: Rodrigo Coppe Caldeira. Belo Horizonte: Âyiné, 2024. 200p. Título original: Left is not woke. Título em espanhol (castelhano): Izquierda no es woke.
observação: Referência de pelo menos uma versão da Introdução do Relatório Final da pesquisa e de pelo menos uma versão da NTL n.º 20.
NEIMAN, S. (2025): NEIMAN, Susan. ‘A esquerda e o woke são absolutamente opostos’. Entrevista a Gerardo Lissardy. BBC News – Brasil, 17 jan. 2025. Disponível em: link externo. Acesso em: 4 fev. 2025.
observação: livro comprado na Maganize Luiza (on-line) por R$83,99 (sem frete) em 14/02 e recebido em 19/02/2025.
comentário: As pontuações da filósofa brasileira Marilena Chaui na entrevista “Sou marxista pra valer, ainda odeio a classe média e não quero entrar no século 21” têm total aderência com as da filósofa estadunidense Susan Neiman no livro “A esquerda não é woke”.



trechos da entrevista na BBC News:
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A autora se refere à confusão que, na sua opinião, existe entre ser de esquerda e ser woke, termo que vem literalmente da palavra em inglês “woke“, pretérito do verbo “wake“, que significa “acordar”. A gíria se transformou em uma referência a estar atento às injustiças sociais.
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Neiman — que se define como de esquerda e dirige o Einstein Forum, na Alemanha, desde 2000 — não apenas considera “esquerda” e “woke” conceitos opostos, como também argumenta que, ao se misturar, eles ajudaram Donald Trump a vencer as eleições presidenciais nos EUA em novembro.
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A BBC News Mundo conversou com a escritora em decorrência do Hay Festival, que acontece em Cartagena, na Colômbia, de 30 de janeiro a 2 de fevereiro.
BBC News Mundo – Por que você decidiu escrever um livro afirmando que a esquerda não é woke?
Susan Neiman – Porque eu andei conversando com amigos em vários países, e todos eles me diziam algo como: “Receio não ser mais de esquerda”… E mencionavam alguma declaração ou evento woke com o qual não se identificavam.
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Neiman – O problema é que as pessoas tendem a não perceber que, junto a esse sentimento tradicional de esquerda, há algumas suposições filosóficas muito de direita no woke.
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Neiman – Minha forte sensação é que sim, a diversidade é um bem — mas não o bem supremo. E é um insulto às mulheres contratá-las só porque são mulheres, assim como é um insulto às pessoas não brancas presumir que, só porque não são brancas, elas têm uma espécie de autoridade.
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Neiman – Não defino woke porque não acho que seja um conceito coerente, porque depende de uma divisão entre sentimentos de esquerda e pensamentos muito de direita.
O que faço no livro é definir o que a esquerda significa hoje. E woke é a antítese dos três primeiros conceitos que aponto como comuns à esquerda liberal.
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Às vezes, pode ser muito difícil manter as duas coisas separadas, mas a luta pela justiça é de esquerda.
E embora muitos tenham desistido da ideia de que a justiça existe, acreditando que é uma máscara para o poder, é essencial que a esquerda não desista da sua busca e da sua universalidade.
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Neiman – E o que as pessoas que gostaram do livro me disseram é que era disso que elas precisavam, porque sentiam que Lula e Gabriel Boric, para poder formar coalizões, tinham que incluir coisas que pareciam woke demais para elas.
Por exemplo, em ambos os países, fiquei chocada com o fato de haver discussões sobre banheiros com base em gênero. [segue placa de identificação de um AL-GENDER RESTROOM]
[comentário de Marcos Fontoura: Acesse a Resolução CNLGBTQIA+ n.º 2/2023 (banheiros)]
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Neiman – Achava que só os políticos republicanos da Carolina do Norte se preocupavam com esse tipo de coisa.
A maioria das pessoas, quando vai ao banheiro, fecha a porta. Quem se importa? É um tema inventado, mas que tem sido muito utilizado. Trump usou isso com muito sucesso.
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Neiman – Uma crítica do livro na Alemanha dizia: “Ela não é realmente de esquerda, é uma social-democrata, não acredita na revolução armada.”
Eu diria a qualquer um que ainda acredita na revolução armada em um mundo armado até os dentes, que teríamos sorte se não explodíssemos uns aos outros em um futuro próximo.
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Neiman – E é interessante que algo assim esteja acontecendo com o woke, um termo que começou a ser usado na década de 1930 por músicos de blues afro-americanos para denunciar o racismo, e não foi muito mais usado até Trump chegar ao poder.
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BBC News Mundo – E qual é o perigo de usar ‘esquerda’ e ‘woke’ como sinônimos no mundo de hoje?
Neiman – É que eles não são! São absolutamente opostos!
[…]
Neiman – A maior esperança que eu acho que podemos ter, por incrível que pareça, é que as pessoas que ele [referindo-se ao presidente D.Trump dos EUA] escolheu para sua equipe são tão incompetentes e terríveis que pode haver muitas brigas internas.
trechos do livro (edição brasileira 2024):
p.9: O que esse livro não é: um apelo ao bipartidarismo ou um discurso contra a cultura do cancelamento. […] Não me considero uma liberal, talvez porque eu viva em um lugar onde “liberal” significa apenas “libertário” […]. Em uma época em que até mesmo a palavra “liberal” é muitas vezes uma calúnia na cultura americana, é fácil esquecer que “socialista” já foi uma posição política perfeitamente respeitável na terra da liberdade. […] Como Einstein e tantos outros, fico feliz em ser chamada de esquerdista e socialista.
p.10: [referindo-se à Declaração Universal dos Direitos Humanos, da ONU de 1948] Estar à esquerda é insistir que essas aspirações não são utópicas.
p.37: […] E, embora ainda se refira a um problema reconhecível, a expressão “política identitária” se tornou tóxica, adotada por conservadores que não sabem que estão praticando sua própria política identitária.
p.74: […] Nenhum argumento, religioso ou secular, pode decidir entre universalismo e tribalismo. É uma decisão individual, e cada uma comporta risco.
p.75: Se ouvir com atenção é sempre uma boa ideia, ouvir uma voz em detrimento de outras é sempre um erro. […]
p.75: […] Sem dúvida, a subestimação dos valores culturais dos povos africanos, baseada em sentimentos racistas e na intenção de perpetuar a exploração estrangeira dos africanos, causos muitos danos […] mas a aceitação cega dos valores da cultura, sem considerar os elementos atuais ou potencialmente regressivos que ela contém, não seria menos prejudicial à África do que a subestimação racista da cultura africana”. NOTA 49: Amílcar Cabral, apud Táiwò, Elite Capture, op. cit., p.82.
p.76: […] Os gritos de dor merecem ser ouvidos e respondidos, mas não são uma fonte de autoridade mais privilegiada do que argumentos consistentes.
p.79: Nada expressa a dor ou o desejo de liberdade de maneira mais imediata do que a arte em todas as suas formas; essa é uma das razões pelas quais a sugestão atual de que as culturas pertencem às tribos é tão equivocada.
p.79: No Sul antebellum [nota 58: Sul dos Estados Unidos antes da Guerra de Secessão. [N.T.]], os proprietários de escravos chegaram ao pontod e reescrever a Bíblia para que a história de Moisés e do Êxodo não aparecesse. Eles sabiam que isso era incendiário. Assim como os afro-americanos escravizados, cuja canção magnífica “Go Down, Moses” compensou seu acesso restrito aos textos. Isso foi apropriação cultural […]?.
p.80: Nada conecta melhor os membros de diferentes tribos do que ser tocado por um produto cultural, nada oferece mais percepção ou desperta mais emoção.
p.80-81: Quando comprei o livro A vida não me assusta, de Maya Angelou, com ilustrações de Basquiat, como presente de aniversário de três anos para uma de minhas filhas, não tinha consciência de que estava lhe dando uma lição. Décadas depois, durante as manifestações do BLM que provocaram discussões e ativismos em tantas famílias, ela me disse que eu havi acertado – justamente porque não acompanhei o presente com uma palestra sobre antirracismo ou o valor da diversidade. […] Algumas coisas são melhores para mostrar do que para contar.
p.196: […] Expliquei [ao autor e ativista indiano Harsh Mander] minhas asserções sobre o abandono progressivo de três princípios essenciais para a esquerda: compromissos com o universalismo, uma distinção rígida entre justiça e poder e a possibilidade de progresso. [dois princípios citados na NTL n.º 20A, p.___]. pendente
Mander concordou e sugeriu um quatro princípio: o compromisso com a duvida.