DUNKER, C.I.L. (2019): DUNKER, Christian Ingo Lenz. Como encontrar a felicidade em tempos sombrios: três passos para olhar o futuro. The Intercept Brasil, 26 out. 2019. Disponível em: internet. acesso em: 27 out. 2019. [citado no verbete sobre tempo e memória]
trechos:
ALGUÉM PODE realmente se sentir feliz quando tudo à sua volta está em estado de devastação e miséria?
Essa pergunta tem assediado os consultórios de psicanalistas e terapeutas desde que as eleições de 2018 criaram uma nova atmosfera de afetos e perspectivas.
Momentos sombrios criam uma espécie de recolhimento defensivo. Você tende a se contentar com menos, reduzindo expectativas e comparando sua própria vida com a infelicidade alheia. O futuro se encurta, o passado se torna um pesadelo de bons momentos agora perdidos. Os detalhes e insignificâncias, aos quais se apega nossa miséria neurótica, são fonte de irritação e contrariedade permanente. A alternância entre dores e prazeres se torna tediosa como um longo caminho que não leva a lugar algum.
[…]
Para recriar alguma felicidade em tempos sombrios proponho aqui um roteiro em três passos:
Autocrítica não é culpa […]
Não deixe seu desejo ser subornado pela esperança […]
Esperança é efeito do desejo, não a sua causa. Aposente a conversa sobre otimismo ou pessimismo, deixe isso para os pequenos moralistas e o coaching. Seria preciso reconstruir a felicidade por uma certa reconciliação com o fato que o desejo não pode ser condicionado a nada. Neste momento, a névoa de culpa e as sombras do medo cedem lugar para a descoberta de que é nesta hora mais escura que podemos reconhecer quem são, afinal, aqueles com quem podemos contar [citado no verbete sobre tempo e memória].
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Cultive sonhos antes que eles virem pesadelos
Mas a verdadeira felicidade só será restaurada pela capacidade de sonhar. E sonhos são feitos da mesma fina poeira que recobre a realidade e dá forma às trevas. Esta sutil matéria chamada felicidade é feita de pessoas, qualidade de experiência e tempo.
Geralmente, achamos que, para desejar, é preciso causas relevantes, motivos importantes ou razões de ordem superior. Mas a felicidade no desejo é amiga da falta e do respeito com a escassez. Freud falava em “técnicas de felicidade” cujos maiores exemplos são o trabalho coletivo, o amor e a criação estética [citado no verbete sobre tempo e memória]. Evite os tipos menores como a fuga delirante da realidade, o refúgio na fantasia neurótica ou a anestesia tóxica. O desejo não desperta quando nos livramos do sofrimento, essa conjectura virtual e enganadora, depois da qual a vida afinal começará.
O desejo do novo vem quando escutamos seu percurso de formação, que sempre fala baixo, mas que, quando aparece, vem com a força de algo que sempre esteve aí. Por isso é importante ater-se ao seu “grow onírico”, ou seja, pequenos sonhos, mas cultivados com carinho e continuidade, no tempo longo em que as coisas começam de novo.
Cada um encontrará o momento em que decretamos o fim do luto e o novo começo, uma espécie de marco zero para a retomada. E ela virá do trabalho alternado de decifração do passado e de criação de futuros mais longos do que quatro anos.
Passar tempo com pessoas queridas, cultivar alguma gratidão, qualificar prazeres e sabores podem, lentamente, transformar o medo e culpa na raiva e coragem necessárias para mudar a si e ao mundo. Experimente intensamente o momento presente, em sua infinita tragédia e devastação. Lembre-se de cada passo que nos trouxe até aqui, agora com sobriedade e distância.
Estude como sua própria história se combinou com a de todos nós. Se for para resumir em uma palavra: estude. Aprenda como um monge copista na Idade Média. Leia como um inveterado romântico ou como um beatnik dos anos 1960. Entenda que estamos diante de uma época de ignorância, com pessoas presas às suas sombras, como na Caverna de Platão.
Aprenda com os resistentes da Matrix, com os replicantes de Blade Runner. Certifique-se, como os próprios olhos, que Jesus não é isso que está sendo vendido por aí, atrás de uma arma ou em cima de uma goiabeira, e nem Newton foi aposentado pela terra plana. Lembre-se que não há saber sem amor e que se você trocou seus sonhos por bijuteria é porque não estava cuidando muito bem deles.
Evite sobretudo as ilusões reativas que nos trouxeram até aqui, movidos por um futuro feito de felicidade fácil a preço módico, muita ignorância e justiça feita às pressas.
Quando acordar para vida, na próxima vez, pise com cuidado, porque o peso da sua felicidade faz parte do sonho de todos nós.