

RAMOS, G. (1981): RAMOS, Graciliano. Memórias do cárcere. São Paulo: Círculo do Livro, 1981. v.1, p.1-306; v.2, 307-558.
Sobre o livro, acesse: “Narrativas histórica e literária nas Memórias do Cárcere…” de Marcos Fontoura na revista Raído.
Do mesmo autor, acesse: Garranchos, Angústia, S. Bernardo, Vidas Secas. (links pendentes)
Sobre o autor, acesse: O velho Graça / Corpos escritos.
trechos maiores do livro, recortados e citados no artigo da Raído:
p.89:
Ao cabo de vinte e quatro horas achar-me-ia alojado na segunda classe. Haviam-nos tratado bem até aquele momento: o vagão-restaurante da Great Western, automóveis, uma prisão de oficiais, gestos e palavras corteses. Era como se fôssemos sujeitos importantes. Mas certamente havia equívoco na classificação: perceberiam que não estávamos no lugar próprio e mandar-nos-iam descer um degrau. Pensava assim e resistia em convencer-me de qualquer rebaixamento: nenhum motivo para não nos darem um camarote de primeira classe.
p.289:
A delicadeza obsequiosa e o desinteresse ostensivo do homem rico marcavam-me a inferioridade social. […] Usava roupa e linguagem de burguês, à primeira vista não nos distinguíamos; o mais simples exame, porém, revelaria entre nós diferença enorme. Também me diferenciava dos operários; se tentasse negar isso, cairia na parlapatice demagógica. Achava-me fora das classes, num grupo vacilante e sem caráter, sempre a subir e a descer degraus, a topar obstáculos. Impossível fixar-me no declive longo da vida estreita. Repelido em cima e embaixo: aqui os modos afáveis e protetores de Adolfo; ali a brutalidade rija do estivador Desidério.
p.334:
[…] embora estivessem próximas, em cima do tabuado exíguo, as pessoas vindas da primeira classe muito de distanciavam de nós. Atentei nos rostos delas – e, que me lembre, nunca vi tal expressão de estabilidade, segurança. Firmeza em cima de pranchas mal pregadas. Um homem baixo emagro, mulheres bem vestidas. Certamente se haviam habituado a trastes como nós, espalhados no chão, eram tipas importantes, não nos enxergavam, naturalmente. Carregados de embrulhos, redes, malas e sobretudo, gente do sul e do norte, pobres diabos, não valíamos nada, éramos lixo. Não nos distinguiam. Acostumadas ao luxo, andavam cegas, podiam pisar-nos. […] Estávamos ali, arrumados nas pranchas, com os nossos embrulhos e a nossa desgraça – e elas não nos viam. Lixo. Se quisessem levantar-se e andar, caminhariam bem, pois não tomávamos espaço, éramos coisas diminutas, rentes às tábuas. Passariam rentes por cima de nós, machucar-nos-iam com as solas dos sapatos, como se fôssemos pontas de cigarros.
p.337:
Sentado na valise, arrimado à tábua, pouco a pouco me entorpeci, achei-me longe do porão da lancha, do carro de segunda classe, do tintureiro. […] Necessário esquecer tudo aquilo: o porão, o carro de segunda classe, o tintureiro, os cubículos, a recordação da infância, o país distante e absurdo, refúgio impossível.
p.357:
– Aqui não há direito. Escutem. Nenhum direito. Quem foi grande esqueça-se disto. Aqui não há grandes. Tudo igual. Os que têm protetores fiquem lá fora. Atenção. Vocês não vêm corrigir-se, estão ouvindo? Não vêm corrigir-se: vêm morrer.