JESUS, C.M. (1961): JESUS, Carolina Maria de. Casa de Alvenaria: diário de uma ex-favelada. Apresentação: Audálio Dantas. São Paulo: Editora Paulo de Azevedo, 1961. 183p. coleção “Contrastes e Confrontos”, v.4.
- DANTAS, A. (1961): DANTAS, Audálio. Casa de Alvenaria — história de uma ascensão social. In: JESUS, Carolina Maria de. Casa de Alvenaria: diário de uma ex-favelada. São Paulo: Editora Paulo de Azevedo, 1961. p.5-10.
- JESUS, C.M. (1961): JESUS, Carolina de. 2 de dezembro. In: _______. Casa de Alvenaria: diário de uma ex-favelada. São Paulo: Editora Paulo de Azevedo, 1961. 89-93.
trechos avulsos com grafia da época (1961):
p.7 [Audálio Dantas citando Carolina de jesus}:
Agradeci e despedi e fui tomar o onibus, pensando nas palavras do senhor Fernando Soares. Êle disse para eu não ir cantar no rádio…
p.11:
5 de maio de 1960 [início do livro]
[…]
p.13:
Agradeci as pessoas presentes dizendo que estava com pressa e saí correndo. Na Praça da Sé estavam desfilando carros com crianças defeituosas angariando auxilios. Os meus filhos olhavam as crianças defeituosas. Eu disse a um casal que segurava um menino:
— O senhor vê essas crianças! Os pais delas devem ser tristes. Ainda tem pais que bate nos seus
filhos porque quebrou a vidraça do vizinho ou sujouse na lama, ou fala palavrões. E se êles não falam!
p.15:
Despedi de todos na livraria e fui fotografada na vitrine. Quando chegamos no ponto do bonde, levei os filhos para jantar no restaurante. Eles gostaram. […]
p.16:
7 de maio
[…]
Mas agora que temos o que comer em casa, êle transformou-se: deixou de ser João Bruto para ser João Gentil. É que a fome deixa as pessoas neuróticas. […]
p.17:
[…] Fui entrevistada pelo repórter Heitor Augusto. Falamos da favela. E porque a favela é o quarto de despejo de São Paulo. É que em 1948, quando começaram a demolir as casas terreas para construir os edificios, nós os pobres que residiamos nas habitações coletivas fomos despejados e ficamos debaixo das pontes. É por isso que eu denomino que a favela é o quarto de despejo de uma cidade. Nós os pobres somos os trastes velhos.
p.19:
13 de maio … Hoje é o dia que comemoramos a extinção da escravidão. Se a escravidão não fosse extinta, eu era escrava, porque sou preta. […]
p.20:
[…] Eu queria voltar de bonde, o repórter não permitiu e conduziu-me. Na rua Araguaia eu desci do carro e voltei para a favela. Era uma e meia da manhã. […]
p.20:
14 de maio
[…]
p.21:
Quando chegamos na favela o motorista ficou horrorizado. O seu olhar percorria de um local ao outro. Exclamou:
— Credo, que lugar! Então é isso que é favela? Ê a primeira vez que vejo favela. Eu pensava que favela era um lugar bonito, por causa daquele samba: […]
[comentário: Lembrei-me do filme Identidade com o homem branco (que era casado com uma negra que se fazia passar por branca] dizendo à amiga negra da esposa que nunca havia visto uma pessoa negra.]
p.89:
2 de dezembro. Levantamos as 4 horas., preparamos as malas. O senhor Assis chegou as 7 horas, avisando que o Governador havia solicitado a minha presença no Estado por mais um dia. Para eu ir visitar as favelas. Fui comprar jornais. Saí com o senhor Assis. Fiquei contente ao chegar no Palacio. Vi varios criados de cor. A camareira conduziu-me até a sala onde eu devia falar com Dona Neuza Brizola. Sentei observando os adornos. Quando a Dona Neuza Goulart Brizola surgiu fiquei observando-a atentamente. Foi a primeira espôsa de governador a receber-me depois que eu saí da favela. Conversando com Dona Neuza percebi que o majestoso palácio que ela habita não envaidece-lhe. Achei lindo ela dizer:
– Carolina, este palacio não me envaidece. Tenho pavor desta casa. O meu espôso é político. E os políticos não têm amigos.
… Ela despediu-se. Fui falar com o Dr. Leonel Brizola noutra sala. Perguntei-lhe como vai indo o desenvolvimento do Estado. (…) O Dr. Leonel Brizola pediu-me para não envaidecer e não desprezar os pobres.
p.90:
– Você deve voltar periodicamente a favela para não perder sua autenticidade. Você vai visitar as favelas de Porto Alegre e dizer aos favelados que êles precisam e devem estudar. Faça-me esse favor. O meu sonho é acabar com o analfabetismo no Estado. O meu carro está a seu dispor.
Dei uma risada e comentei:
— Que honra para mim! Eu estava habituada a andar só na Rádio-Patrulha”. [comentário: esse trecho me lembrou o artigo que escrevi na revista Raído sobre Memórias do cárcere]
(…)
Eu e o senhor Assis despedimos do Dr. Leonel Brizola. Que carro gostoso! As almofadas parecem painas. Fiquei aguardando no hotel a visita da secretaria da Dona Neuza Brizola, que ia acompanhar-me nas favelas. (…) As 3 horas a secretaria chegou com o seu espôso. Percorri os bairros pobres de Porto Alegre. Fiquei abismada quando vi as favelas do Rio Grande do Sul. As casas são de tábuas bem construídas. Tem muita agua e varios tanques. As mulheres não brigam por causa da agua. (…) Algumas pessoas da favela conheciam-me de nome. Vi uma sala ampla com poltronas e um quadro negro, onde as crianças estudam. Quem leciona são as freiras e os padres.
… Quando o povo aglomerou-se fiz um discurso pedindo ao povo para estudar. Saber ler é bom e a vida é mais agradável. Uma menona que prestava atenção nas minahs palavras, perguntou:
— Mamãe, esta negra é doida? Será que ela fugiu do hospicio?
É que o hosício é perto da favela. Dei uma risada. Eu estava alegre. (…) A favela é num topo. Para galgá-la fomos de perua. O local onde está a favela é belo. Avista-se toda a cidade. O local é seco. Um senhor que nos acompanhava dizia:
— Estes pobres do Rio Grande do Sul são ricos. Pobres são os favelados de São Paulo, do Rio e do Norte.
p.90:
O que impressionou-me na favela de Porto Alegre foi a quantidade de agua. Quando abre a torneira em dois minutos enche-se uma lata. As mulheres lavam as roupas com agua canalizada desinfetada com cloro.
… Voltamos a Porto Alegre. Eu estava contente. A segunda favela a ser visitada foi a Vila Vargas, conhecida como Coreia. (…) Em todas as favelas que visitei, dizia:
— Vocês devem aprender a ler.
Uma senhora perguntou:
— A senhora sente-se bem fora da favela?
— Sinto melhor. A favela é um quarto de despejo e o meu sonho é residir numa casa de alvenaria. Se eu não soubesse ler teria que ficar na favela até o fim da minha vida.
… Uma preta idosa deu-me um ramalhete de flor. Agradeci e beijei as flores. O tempo não dava para percorrer as favelas, que são espalhadas. Despedi da auxiliar de Dona Neuza Brizola.
… A noite de quinta-feira tivemos uma recepção no Galeto Sherezade. A homenagem conjunta da Associação Riograndense de Imprensa e Instituto de Idiomas Yazigi, que nos ofereceu um banquete.
… Fomos na Câmara ver o II Congresso Estadual de Vereadores. Estava empolgante. O Governador Leonel Brizola estava presente. Eu disse-lhe:
— O senhor está perseguindo-me…
Êle sorriu comentando:
— Não, Carolina. Quem está perseguindo-me é você. Eu cheguei na frente.
O presidente interrompeu os debates para receber-me. E apresentou-me aos presentes, convidando-me para me dar parte nos debates. Perguntou-me qual é a causa das favelas nas grandes cidades. Respondi:
— Nós os favelados somos os homens do campo. Devido os fazendeiros nos explorar ilimitadamente [fim da p.91]
p.92:
deixamos as favelas e vamos para as cidades. E nas grandes cidades, os que vivem melhor são os cultos. Nós os incultos encontramos dificuldades de vida. Mesmo trabalhando na cidade como assalariado, encontramos dificuldades para viver porque o salario não cobre as despesas. Não há possibilidade de pagar uma residencia decente. Temos que habitar as terras do Estado.
Cheguei a escrever uns versos e publicalos em varios jornais. minhas observações com o colono e o fazendeiro:
Diz o brasileiro
que acabou a escravidão.
Colono sua o ano inteiro
e nunca tem um tostão.
Se o colono está doente
é preciso trabalhar.
Luta o pobre no sol quente
e nada tem para guardar.
Cinco da madrugada
toca o fiscal a corneta
despertando o camarada
para ir para a colheita.
Chega a roça ao sol nascer
cada um na sua linha
suandoy e para comer
só feijão e farinha.
Nunca pode melhorar
esta negra situação
carne não pode comprar
prá não dever ao patrão.
p.93:
Fazendeiro, ao fim do mês
dá um vale de cem mil réis
artigo que custa seis
vende ao colono por dez.
Colono não tem futuro
e trabalha todo dia
o pobre não tem seguro
e nem aposentadoria.
Êle perde a mocidade
a vida inteira no mato
e não tem sociedade
onde está seu sindicato?
Passa o ano inteiro
trabalhando — que grandeza!
enriquece o fazendeiro
e termina na pobreza.
Se o fazendeiro falar:
— Não fique na minha fazenda
colono tem que mudar
Pois não há quem o defenda.
Fui aplaudida. Meu olhar avuou para o rosto do Dr. Leonel Brizola. Êle estava sorrindo. (…) Autografei alguns livros para os vereadores.
… Se eu pudesse percorrer todos os Estados do Brasil! Eu estava alegre. Pensava: isto é um sonho! Outro dia eu estava em São Paulo percorrendo a Avenida Tiradentes, fussando as latas de lixo. Chorando com fome. E hoje… estou entre os vultos de destaque do país.
Li as historias das fadas que transformavam a vida dos infelizes em principes e princesas. Eu vivia dizendo: a felicidade virou-me as costas. Agora pegou-me nos braços. (…) Quando saí da Camara ganhei uma flamula azul com a inscrição: “ II Congresso [fim da p.93]
p.94:
Estadual de Vereadores — 1 a 3 de dezembro de 1980 — Porto Alegre — Bio Grande do Sul.
Cheguei no hotel fui preparar as malas para o retorno.
comentário: cheguei a esse trecho do livro por uma postagem no facebook de Du Leal em 29/01/2022. Encontrei o PDF do livro, linkado na referência, e o transcrevi na íntegra (portanto, maior que a postagem) e com a grafia da época (a diferença é basicamente a acentuação). A postagem também acompanha fotografia de Carolina com Brizola com a seguinte observação: No livro “Casa de Alvenaria” (1961), Carolina de Jesus registra sua passagem por Porto Alegre e o encontro com Leonel Brizola e sua esposa Neuza Goulart na turnê de divulgação do seu primeiro livro “Quarto de Despejo”. Datada em 02 de dezembro de 1960:
A seguir, a fotografia da postagem com a seguinte legenda: Foto: Correio da Manhã, 19 de março de 1961.
