A personagem Josephine Link Steelson nos conta que costumava usar uma linha que partia do bairro dela, com ônibus velhos e apenas com passageiros pretos, para ir ao centro de Nova Orleans. No entanto, ela descia no meio do caminho, quando sua linha passava pelo bairro dos brancos, apenas para usar ônibus novos, repletos de brancos. Os passageiros brancos a olhavam sem poder impedi-la de se sentar nos bancos da frente como havia sido no passado, na época dos ônibus segregados.
GAUDÉ, L. (2025): GAUDÉ, Laurent. Furacão. Tradução: Ana Teixeira. Por: Amok Teatro. Direção: Ana Teixeira e Stephane Brodt. Elenco: Sirlea Aleixo e Thalyssiane Aleixo (atrizes); Anderson Ribeiro e Rudá Brauns (músicos). Sesc Santana, São Paulo, de 18 de janeiro a 16 de fevereiro de 205 (programa).
ou
AMOK TEATRO (2025): AMOK TEATRO. Furacão (de Laurent Gaudé). Tradução: Ana Teixeira. Direção: Ana Teixeira e Stephane Brodt. Elenco: Sirlea Aleixo e Thalyssiane Aleixo (atrizes); Anderson Ribeiro e Rudá Brauns (músicos). Sesc Santana, São Paulo, de 18 de janeiro a 16 de fevereiro de 2025 (programa).
SESC-SP (2025a): SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO – SÃO PAULO (SESC-SP). Home page. Programação. Furacão. São Paulo, s.d. Disponível em: link externo. Acesso em: 2 fev. 2025.
fragmento em vídeo e crítica de Geraldo Martins no Instagram:
A personagem de “Furacão”, de Laurent Gaudé, é filha da poesia de Drummond: “Lutar com palavras / é a luta mais vã. / Entanto lutamos / mal rompe a manhã.” Josephine encarna no corpo da atriz Sirlea Aleixo e, juntamente com a voz de Taty Aleixo e os acordes de Rudá Brauns e Anderson Ribeiro, encantam a plateia. O público mareja os olhos e é atravessado pela força vicejante do que lateja no sofrimento e na revolta da personagem. Ela nos lembra os efeitos da devastadora passagem do furacão Katrina em Nova Orleans há quase vinte anos. A direção de Ana Teixeira e Stephane Brodt é uma borda no real da tragédia, que se instaura sobre os escombros dos desamparados.
Solidão, medo, injustiça social e luta compõe a trama de “Furacão” no Sesc Santana. Josephine é uma mulher preta quase centenária que não se deixa quedar diante da fúria da tempestade, nem do rompimento dos diques, nem da destruição do pouco que tinha cada um dos habitantes da periferia onde vive. Ela compartilha conosco a desolação das pessoas pretas e pobres deixadas na escuridão do desamparo após a fuga dos brancos. Sirlea pare uma personagem feita de coragem e orgulho da sua história. Ela nasce como um lírio do charco. Ela cai, mas sempre cai em pé: “Luto corpo a corpo, / luto todo tempo”.
Josephine Link Steelson enfrenta com altivez tanto a fúria do furacão quanto o desprezo dos brancos. Ela não esmorece. Ela transforma sua dor em luta. Ela não se cala. Revoltar é para ela dar voltas, é sentar-se nas primeiras cadeiras dos bancos de ônibus, outrora de uso exclusivo dos brancos. Ela não aspira heroísmo nem santidade. Ela só quer a vida. Essa é sua glória. Ela nos faz termos vergonha de nossas fraquezas e de nossas passividades diante de um mundo feito para poucos. Josephine é Rosa Parks, Elza Soares, Anastácia, Dandara dos Palmares, Léa Garcia, Érika Hilton, Preta Gil.
A beleza do espetáculo é como um grito onde a arte toca no real. Muito obrigado, Amok Teatro.
Geraldo Martins – psicanalista
fragmento do programa:
Strange Fruit: Abel Meeropol (Lewis Allan)
“Strange Fruit” foi escrita e composta por Abel Meeropol sob o pseudônimo de Lewis Allan. Meeropol foi um professor judeu que escreveu “Strange Fruit” após ver a foto [acesse na Wikimedia] do linchamento de Thomas Shipp e Abram Smith, do fotógrafo Lawrence Beitler, feita em 1930, em Indiana. Billie Holiday cantou “Strange Fruit” pela primeira vez em 1939 [acesse vídeo de 1959 no YouTube] causando um grande impacto e deixando uma marca permanente na sociedade americana.
texto integral na home page do Sesc-SP:
No coração da tempestade, Joséphine Linc Steelson, “uma velha negra de quase cem anos”, enfrenta a fúria da natureza. Uma mulher marcada pela segregação racial. Uma voz que ecoa como um grito na cidade inundada e abandonada a própria sorte. O espetáculo seguirá a trajetória desta mulher cuja história poderia ser também a história de tantas mulheres brasileiras. Dirigido por Ana Teixeira e Stephane Brodt, o espetáculo conta com um elenco composto por dois músicos e duas atrizes-cantoras.
Baseada na obra do premiado escritor francês Laurent Gaudé, o texto mergulha no coração e mente de uma sobrevivente do Katrina. Com um discurso arrebatador, marcado tanto pela tragédia clássica como pela música popular do sul dos EUA, a narrativa alcança questões complexas no que diz respeito à ética, revelando que os mais pobres foram os únicos a ficar para trás depois do alerta de tempestade.
FURACÃO fala sobre o Katrina, sobre suas vítimas e sobre os que sobreviveram, mas fala principalmente sobre o peso da desigualdade em momentos de tragédia. Um texto que mistura a gravidade do trágico com a doçura da fábula, para exaltar a beleza comovente daqueles que, apesar de tudo, permanecem de pé.
Com FURACÃO, o teatro e a música se juntam num ato único, provocando uma reflexão emocionante sobre o nosso tempo. “O que resta de um ser humano quando todas as referências sociais e morais se dissolvem no caos e no medo?” A riquíssima cultura musical negra estadunidense (em particular, o blues) é a referência para a criação de uma linguagem cênica híbrida: o espetáculo FURACÃO apoia-se tanto no teatro como na música para instaurar a cena ritual e cerimonial que caracteriza os trabalhos do Amok. Transitando entre a palavra e o canto, a música tem um grande destaque no espetáculo.
Amok Teatro
Dirigido por Ana Teixeira e Stephane Brodt, o Amok Teatro caracteriza-se pela dedicação a um processo contínuo de pesquisa sobre a arte do ator e sobre as linguagens da cena. Desde sua fundação, o grupo tem recebido um grande reconhecimento da crítica e do público, sendo considerada uma das companhias de maior prestígio da cena carioca contemporânea. Em 2023, a cia comemora 25 anos de trajetória.
O trabalho do Amok se caracteriza pela busca de um rigor formal e por uma intensidade que é afirmada no corpo do ator, como sendo o lugar em que o teatro acontece. Cada novo projeto impulsiona o grupo a procurar diferentes caminhos de pesquisa cênica e de treinamento para o ator a partir do diálogo com diferentes tradições e culturas. Os espetáculos do Amok tratam de temas contemporâneos sem perder de vista a busca de uma linguagem poética e a afirmação da cena como um espaço cerimonial.
Ficha Técnica
Texto: Laurent Gaudé
Tradução: Ana Teixeira
Direção: Ana Teixeira e Stephane Brodt
Elenco: Sirlea Aleixo e Thalyssiane Aleixo (atrizes)
Anderson Ribeiro e Rudá Brauns (músicos)
Iluminação: Renato Machado
Direção musical: Stephane Brodt
Criação musical: Anderson Ribeiro e Rudá Brauns
Cenário e figurino: Ana Teixeira e Stephane Brodt
Operador de Luz: João Gaspary
Cenotécnico: Beto Almeida
Fotografia: Renato Mangolin e Sabrina Paz
Produção executiva: Gabriel Garcia
Assistente de Produção: Lucas Petitdemange
Direção de produção: Sonia Dantas
Assessoria de Comunicação: Larissa Régia e Ney Motta
A imagem no topo deste verbete é uma alegoria criada pela Pallavra Comunicação especialmente para lembrar a população negra de Nova Orleans (Louisiana/USA), devastada pela passagem do furacão Katrina em 2005, cidade que conheci pouco antes.