DAVIS, A. (2018a1): DAVIS, Angela. A liberdade é uma luta constante. Organização: Frank Barat. Prefácio: Cornel West. Introdução: Frank Barat. Tradução: Heci Regina Candiani. Prefácio à edição brasileira: Angela Figueiredo. São Paulo: Boitempo, 2018. [recurso eletrônico – 139p.]. Título original: Freedom is a constant struggle: ferguson, palestine, and the foundations of a movement.
- DAVIS, A. (2018a2): DAVIS, Angela. As lutas progressistas contra o insidioso individualismo capitalista – entrevista realizada por Frank Barat (conduzida por e-mail ao longo de vários meses de 2014). In: _______. A liberdade é uma luta constante. Organização: Frank Barat. Tradução: Heci Regina Candiani. São Paulo: Boitempo, 2018. [recurso eletrônico – p.19-25].

trechos:
p.4:
Sobre A liberdade é uma luta constante
Em seu novo livro, a intelectual e ativista Angela Davis trata da internacionalização das lutas sociais em nosso tempo, articulando discussões sobre feminismo, movimento negro, LGBTQ, transexualidade e causa Palestina.
JUDITH BUTLER
“Angela Davis nos oferece, mais uma vez, uma compreensão incisiva, urgente e abrangente do racismo sistemático, das bases para a análise e a solidariedade interseccionais e da importância de trabalharmos como iguais para desvelar e destronar sistemas injustos.”
DESMOND TUTU
“O novo livro de Angela Davis me fez pensar no que Nelson Mandela sempre dizia: que devemos estar dispostos a assumir a longa caminhada rumo à liberdade. Compreender o que é necessário para ser livre e não ter medo é o primeiro e mais importante passo que alguém deve dar antes de empreender essa jornada. Angela é a prova viva de que esse desafio também pode ser estimulante e belo.”
MUMIA ABU-JAMAL
“Esta é a Angela clássica: perspicaz, curiosa, observadora e brilhante, tratando de temas deste século que parecem surpreendentemente semelhantes aos do século passado.”
ALICE WALKER
“Eis alguém digna de seus ancestrais. Angela Davis se mantém firme em todas as questões relevantes para a vitalidade de nosso povo e do planeta.”
p.9 [de Angela Figueiredo – Salvador, janeiro de 2018]
Angela Davis veio pela primeira vez ao Brasil em 1997, para participar da Jornada Cultural Lélia Gonzalez, no Maranhão. Em 2008, ela esteve na Bahia para participar da 9ª edição do Curso Internacional Fábrica de Ideias, voltado principalmente para estudantes negros da pós-graduação que trabalhavam com a questão das desigualdades e hierarquias raciais e suas intersecções. E é evidente que uma ativista e intelectual do calibre de Davis não veio à Bahia, estado com a maior população negra fora da África, somente para um curso. Ela queria conhecer a cultura e a atuação política negras. Naquele mesmo ano, ocorreu no Ilê Axé Opô Afonjá um nesquecível e histórico encontro entre duas grandes lideranças feministas negras: Angela Davis e Mãe Stella de Oxóssi, ialorixá do terreiro e uma das lideranças do [continua…]
[…continuação] movimento pela dessincretização dos candomblés. O evento também contou com a participação de várias outras lideranças feministas negras. Na última visita da pensadora à Bahia, ocorrida em julho de 2017 para participar da primeira edição da escola de pensamento feminista negro e decolonial, foi surpreendente a significativa repercussão e mobilização nacional, principalmente advinda da juventude negra. Considero que tal mobilização reflete o quadro político atual, caracterizado pelos inúmeros processos de corrupção envolvendo toda a superestrutura política, pelo impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff e pela perda de direitos sociais e políticos que marcou o último ano no Brasil. É, portanto, de uma importância inegável termos alguém como Angela Davis para dar força e inspiração política à nossa juventude, seja como intelectual, seja como feminista negra e ativista, seja pelo modo como, em suas palestras, a autora demonstra uma “solidariedade corajosa” e mantém “as chamas da esperança acesas por todos os cantos do mundo na era fria e enregelante da hegemonia neoliberal” [3].
p.15 [de Frank Barat – Bruxelas, junho de 2015]
Trabalho em um edifício que abriga várias organizações e instituições beneficentes que atuam em prol da justiça global. Algumas têm como foco o Saara ocidental; outras, a Palestina; outras, a tortura, a América Latina ou a África. É um ambiente agradável em que se trabalhar, cercado de pessoas que acreditam em uma sociedade melhor e mais justa, que decidiram transformar suas crenças em ação e dedicar a vida a tentar mudar o mundo. Soa utópico, talvez. Mas a palavra relevante aqui provavelmente não é aquela em que você está pensando. É tentar. Tentar e tentar mais uma vez. Nunca desistir. Isso é uma vitória em si. Tudo e todos nos dizem que “lá fora” você não terá êxito, que é tarde demais, que vivemos em uma época em que uma revolução não pode mais acontecer. Mudanças radicais são coisas do passado. Você pode ser um outsider, mas não pode estar fora do sistema, e você pode ter crenças políticas, até mesmo radicais, mas elas precisam ficar nos limites do que é permitido, dentro daquela bolha delineada pelas elites.
p.16 [de Frank Barat – Bruxelas, junho de 2015]:
Enquanto escrevo este texto, a esperança que encontra expressão nas ruas e nas casas de toda a Grécia constitui um movimento. Um movimento em meio a uma enorme perda de riqueza material para a população grega comum. Mas há ali uma mensagem para todas as pessoas: o povo pode se unir, a democracia vinda de baixo pode desafiar a oligarquia, imigrantes que estão em prisões podem ganhar a liberdade, o fascismo pode ser superado e a igualdade é emancipadora.
p.20 [Entrevista realizada por Frank Barat (conduzida por e-mail ao longo de vários meses de 2014)]:
A eleição de Barack Obama foi comemorada por muitas pessoas como uma vitória contra o racismo. Você acredita que isso foi um engodo, que, na verdade, ela paralisou a esquerda por um longo período, incluindo a população afro-americana envolvida na luta por um mundo mais justo?
[…] Mesmo que tenhamos críticas a Obama, é importante enfatizar que não estaríamos em uma situação melhor com Romney na Casa Branca. O que nos fez falta nos últimos cinco anos não foi o presidente correto, e sim movimentos de massa bem organizados. [destaque meu]
comentário: trecho citado no Fórum FIA em jun. 2026 e na postagem objetos: Barack e Michelle Obama (NY).
comentário: Essa conclusão de Angela Davis sobre os movimentos socais durante o governo Obama me lembra Marilena Chaui, em entrevista concedida à Cult um pouco antes (2013): É importantíssimo que a sociedade faça críticas e leve o governo em direção à esquerda. O Lula e a Erundina diziam isso: “Para poder governar eu preciso dos grandes movimentos sociais puxando para a esquerda”. […]
Como você definiria “feminismo negro”? E qual papel ele poderia representar na sociedade atual?
O feminismo negro emergiu como um esforço teórico e prático de demonstrar que raça, gênero e classe são inseparáveis nos contextos sociais em que vivemos. Na época de seu surgimento, com frequência pedia-se às mulheres negras que escolhessem o que era mais importante, o movimento negro ou o movimento de mulheres. A resposta era que a questão estava errada. O mais adequado seria como compreender as intersecções e as interconexões entre os dois movimentos. Ainda estamos diante do desafio de apreender as formas complexas como raça, classe, gênero, sexualidade, nacionalidade e capacidades se entrelaçam – e como superamos essas categorias para entender as inter-relações entre ideias e processos que parecem ser isolados e dissociados. Nesse sentido, insistir que há ligações entre as lutas e o racismo nos Estados Unidos e as lutas contra a repressão israelense ao povo palestino é um processo feminista.
p.25 [Entrevista realizada por Frank Barat (conduzida por e-mail ao longo de vários meses de 2014)]:
A luta é interminável?
Eu diria que, à medida que amadurecem, nossas lutas produzem novas ideias, novas questões e novos campos nos quais nos engajamos na busca pela liberdade. Como Nelson Mandela, devemos ter disposição para abraçar uma longa jornada rumo à liberdade.